Pergunte a qualquer fã de quadrinhos qual foi o primeiro encontro entre personagens da Marvel e da DC. A resposta quase sempre será “Superman vs. Homem-Aranha”, de 1976. Mas um crossover 100% brasileiro aconteceu 12 anos antes, e nem as duas editoras sabiam disso.
O crossover oficial que todo mundo conhece
Quando o assunto é o primeiro crossover oficial entre Marvel e DC, a referência clássica é “Superman vs. Homem-Aranha: A Batalha do Século”, publicado em 1976. Aquela parceria histórica abriu caminho para vários outros encontros entre as editoras nas décadas seguintes.
Só que existe um detalhe que pouca gente conhece. Anos antes desse marco, um encontro entre um herói hoje associado à DC e um personagem da Marvel já havia sido publicado. E isso aconteceu em uma história produzida inteiramente no Brasil, sem autorização de nenhuma das donas dos personagens.
Um almanaque brasileiro de 1964

O crossover em questão saiu na edição anual de 1964 do Almanaque O Globo Juvenil, publicado pela editora carioca RGE. A história recebeu o título de “A Volta de um Grande Herói”. Ela colocou frente a frente o Capitão Marvel, hoje conhecido como Shazam, e o Tocha Humana original da Marvel.
Vale explicar quem são esses personagens. O Capitão Marvel da história é Billy Batson, criado pela Fawcett Comics. Em 1964, ele ainda não pertencia à DC. A editora só passaria a licenciar os personagens da Fawcett nos anos 1970, comprando os direitos em definitivo décadas depois. Já o Tocha Humana em questão é Jim Hammond, o androide flamejante criado por Carl Burgos em 1939. Ele é o primeiro super-herói da história da Marvel, lançado quando a editora ainda se chamava Timely Comics.
Como esse encontro foi possível

Nos anos 1960, os dois personagens estavam praticamente esquecidos nos Estados Unidos. Suas histórias, porém, seguiam sendo republicadas por editoras licenciadas ao redor do mundo. No Brasil, quem detinha os direitos de republicação de ambos era justamente a RGE.
O detalhe importante é que, naquela época, os contratos de licenciamento funcionavam por título de revista, e não por catálogo completo de editora. A RGE podia publicar o Tocha Humana original, mas isso não dava a ela acesso ao Quarteto Fantástico, por exemplo. Para o leitor brasileiro, aliás, essa divisão entre “personagem da Marvel” e “personagem da DC” simplesmente não existia. Todo mundo lia o que as editoras nacionais colocavam nas bancas.
Nesse cenário, histórias não autorizadas feitas por artistas brasileiros eram relativamente comuns. A própria RGE já havia publicado aventuras inéditas do Capitão Marvel que nunca saíram em nenhum outro país. Foi aí que o desenhista Rodriguez Zelis teve uma ideia ousada. Ele juntou o herói da Fawcett com outro personagem sumido havia tempos, mas que a editora tinha direito de usar. Nascia ali, no melhor estilo jeitinho brasileiro, o primeiro crossover entre os dois universos.
A história do encontro
Na trama, Billy Batson lê no jornal sobre uma tentativa de fuga do vilão Cobra. A notícia o faz lembrar de um caso antigo ligado ao desaparecimento de um herói. Transformado em Capitão Marvel, ele se infiltra disfarçado na prisão para investigar o criminoso de perto. Depois, acompanha sua fuga e acaba descobrindo um esconderijo submarino no fundo do oceano.
É lá que o herói encontra os prisioneiros do Cobra, incluindo o próprio Tocha Humana, desaparecido havia anos. Depois do resgate, o vilão coloca em prática um plano de dominação mundial. A ideia é disparar uma superarma contra o Cinturão de Van Allen para superaquecer a Terra. Com a ajuda de um cientista aliado e dos militares, o Capitão Marvel reverte a ameaça. Enquanto isso, o Tocha Humana, já recuperado, retorna à ação para o acerto de contas final. Juntos, os dois heróis derrotam o Cobra e sua gangue.
A despedida ainda deixa um gancho tocante: o Tocha Humana parte em busca do Centelha, seu antigo parceiro desaparecido, conhecido nos Estados Unidos como Toro.
A redescoberta que deixou os gringos malucos
Como os leitores da época não tinham noção da divisão entre editoras, o crossover passou despercebido por décadas. A redescoberta veio apenas em 1999, nas páginas da revista Alter Ego, comandada por Roy Thomas, ex-editor-chefe da Marvel. A publicação trouxe um artigo sobre o encontro, assinado pelo pesquisador John G. Pierce, um dos maiores especialistas do mundo na Família Shazam.
A repercussão transformou o velho almanaque brasileiro em item de colecionador disputadíssimo mundo afora. A história pode não ser oficial, mas foi oficialmente publicada por uma editora licenciada. E, até que alguém encontre outra história não autorizada mais antiga em algum canto do planeta, o posto segue nosso. O primeiro crossover entre Marvel e DC da história aconteceu em um gibi 100% brasileiro.





Seja o primeiro a comentar