DC Studios cometeu um grande erro com ‘Supergirl’

Vinicius Miranda

O novo longa do DCU foi vendido como uma adaptação da aclamada HQ de Tom King e Bilquis Evely. Para parte do público, porém, o resultado final se afasta justamente daquilo que tornava a obra original tão especial.

O segundo filme do novo Universo DC chegou aos cinemas e já provoca um intenso debate entre os fãs. Supergirl, estrelado por Milly Alcock como Kara Zor-El, foi anunciado por James Gunn como uma adaptação de Supergirl: Mulher do Amanhã (Supergirl: Woman of Tomorrow), a elogiada minissérie de Tom King e Bilquis Evely. A expectativa era alta, mas, para uma parcela considerável de leitores, as mudanças feitas pelo estúdio enfraqueceram o coração da história. A recepção, vale dizer, ficou dividida entre quem aprovou o resultado e quem se decepcionou.

A promessa de uma adaptação fiel

Supergirl – Divulgação / DC Studios

Quando o DCU revelou seu plano de filmes e séries, Gunn destacou a HQ como uma das grandes inspirações da nova fase, chegando a recomendar a leitura aos fãs. Não por acaso, o primeiro vislumbre do projeto mostrou justamente Milly Alcock folheando o quadrinho. Esse tipo de gesto cria uma expectativa natural: quando um estúdio aponta repetidamente uma obra como seu modelo, o público espera que a essência dela sobreviva à transição para as telonas. Essa aposta na fidelidade faz parte da estratégia mais ampla do novo universo construído por Gunn e Peter Safran.

O que mudou e por que incomoda parte dos fãs

Atenção, a seguir há spoilers leves sobre temas e desfecho. O subtítulo Mulher do Amanhã foi deixado de lado, e o longa, para muitos, acaba soando como uma aventura de super-herói mais convencional. Uma das mudanças mais comentadas é a decisão de fazer a heroína abraçar a vingança, algo que, segundo os críticos da adaptação, contraria a mensagem central da HQ original.

Outro ponto sensível é a fotografia. Nos quadrinhos, a arte de Bilquis Evely aposta em paisagens alienígenas grandiosas, com um clima ao mesmo tempo belo e melancólico, próximo de um faroeste de fantasia. Já o filme, apesar de momentos visualmente vibrantes, recorre bastante a tons acinzentados e ambientes lavados, o que, na visão desses fãs, faz vários cenários se misturarem em vez de se destacarem. Para quem amava a identidade visual da obra, foi uma escolha frustrante.

O diretor que não leu os quadrinhos

Supergirl – Divulgação / DC Studios

Parte dessa percepção pode ter origem na abordagem do diretor Craig Gillespie. Em entrevista à revista Rolling Stone, o cineasta admitiu que construiu sua visão a partir do roteiro de Ana Nogueira, sem consultar a HQ de Tom King de início.

Eu nem olhei o quadrinho do Tom King. Montei um guia visual de 120 páginas só a partir do roteiro, queria algo cru e sombrio, em que dava para sentir a sujeira e a margem desse mundo alienígena, com a pobreza e o crime.

Gillespie também relatou que pediu, logo na primeira reunião, para que Kara só vestisse o uniforme de heroína o mais tarde possível, apenas quando estivesse emocionalmente pronta, e que a cúpula do estúdio aprovou tudo. As declarações ajudam a explicar o tom mais “pé no chão” do longa. Ainda assim, é importante lembrar que a responsabilidade não recai apenas sobre o diretor, já que Gunn e a roteirista assinaram embaixo dessa visão.

Um teste de confiança para o DCU de Gunn

O ponto mais delicado levantado por essa análise é o de confiança. Gunn conquistou enorme boa vontade ao prometer um universo guiado por cineastas e respeitoso com o material de origem. Quando um dos primeiros projetos é vendido como adaptação fiel de uma HQ amada, mas altera temas, visual e desfecho, parte dos leitores começa a questionar essas promessas. A preocupação se estende aos próximos lançamentos, como a série Lanternas, que troca batalhas espaciais coloridas por um clima mais sóbrio inspirado em True Detective, e o filme Cara de Barro, que promete transformar o vilão em um monstro de terror em uma Gotham sem Batman.

Por outro lado, é justo destacar que a recepção não foi unânime. O filme dividiu a crítica, com avaliações classificadas como medianas em sites de agregação, mas também colecionou defensores. Parte dos resenhistas elogiou bastante a atuação de Milly Alcock e chegou a considerar o longa uma melhoria em relação aos quadrinhos, citando um ritmo mais ágil, mais voz para a protagonista e o bom aproveitamento do Lobo, vivido por Jason Momoa. Ou seja, o que para alguns é uma traição, para outros é uma reinterpretação bem-sucedida.

Se essas escolhas vão ou não comprometer o futuro do DCU, só o tempo dirá. O que já está claro é que a discussão sobre fidelidade às HQs voltou com força, e ela tende a acompanhar cada novo passo do universo de Gunn. E você, achou que Supergirl honrou os quadrinhos ou se distanciou demais da obra original? Conta para a gente nos comentários.

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