Supergirl Pode Arruinar o Futuro do DCU?

William Prado

Quando assumiu o DCUJames Gunn fez uma promessa que soou como alívio para quem sofreu com o antigo DCEU de Zack Snyder. Nada de empurrar filme atrás de filme só para montar um universo compartilhado às pressas, como a Marvel fez na sua fase quatro.

A regra era clara: produção só entra em pré-produção quando o roteiro estiver pronto e aprovado. Qualidade acima de pressa. Foi essa promessa que comprou a paciência dos fãs. E é exatamente essa promessa que Supergirl coloca em xeque.

A PROMESSA QUE COMPROU NOSSA PACIÊNCIA

Superman e Krypto em divulgação de Superman (2025) – Reprodução/DC Studios

Vale lembrar por que essa promessa importava tanto. A Marvel saiu na frente, e a DC passou anos correndo atrás, tentando montar uma Liga da Justiça antes de ter construído seus próprios alicerces. O resultado todo mundo conhece.

Quando Gunn chegou dizendo que faria diferente, que cada roteiro seria tratado com cuidado antes de qualquer câmera ligar, ele não estava só anunciando filmes. Estava pedindo confiança. E ganhou.

O problema é que, olhando o DCU de perto, dá para perceber que Gunn também tem uma zona de conforto. Personagens deslocados, busca por redenção e uma trilha sonora caça-níquel ao fundo. Foi assim em Comando das Criaturas, na segunda temporada de Pacificador e até no próprio Superman.

Eu gostei do novo Superman, e Pacificador me arrancou boas risadas. Mas a fórmula é a mesma, repetida produção após produção. E enquanto a fórmula se repete, o universo continua parecendo que ainda não decolou de verdade.

Aqui está o detalhe que ninguém pode ignorar: a promessa de qualidade só funciona se a qualidade aparecer na tela. Caso contrário, vira só marketing.

SUPERGIRL ERA UMA APOSTA GARANTIDA

A DC tem em mãos algo que a Marvel não tinha no início: todos os seus heróis principais. A Marvel começou o MCU com o Homem de Ferro porque não tinha escolha. Os X-Men estavam na Fox, o Homem-Aranha na Sony.

Coube à competência (e a uma boa dose de sorte) transformar um herói de segundo escalão no rosto de uma geração.

A DC, ao contrário, possui os pilares e mesmo assim escolheu construir o DCU pelas beiradas. E não há nada de errado em apostar fora dos pilares, desde que a aposta seja certeira.

O problema é o peso que cada escolha carrega quando o único alicerce firme até agora é o Superman
Pacificador e Comando das Criaturas são divertidos, mas não sustentam um universo sozinhos.

É nesse cenário frágil que Supergirl entrou, e ela era a aposta mais sensata de todas: a personagem mais conhecida fora da santíssima trindade, com potencial enorme e baseada em uma das melhores HQs da DC nos últimos anos. Se tinha um filme não-pilar com chance de dar certo, era esse.

Por isso o tropeço dói tanto. Não foi uma aposta maluca que deu errado. Foi a aposta mais segura que não se sustentou.

A MULHER DO AMANHÃ, SE HOUVER AMANHÃ, CLARO

Supergirl
Milly Alcock em “Supergirl” – Foto: Parisa Taghizadeh/DC

Supergirl não anda nada bem das pernas. Nos Estados Unidos, o filme estreou com cerca de US$ 38 milhões em seu primeiro fim de semana, abaixo das projeções do próprio estúdio. Para efeito de comparação, “As Marvels” fez cerca de US$ 46 milhões na estreia e foi tratado como decepção pela Marvel na época. Não vou entrar em spoilers aqui. Quem quiser entender onde o filme tropeça pode conferir nossa crítica completa.

O que mais incomoda é o desperdício. O filme prometia adaptar Supergirl: A Mulher do Amanhã (Supergirl: Woman of Tomorrow), escrita por Tom King e ilustrada pela talentosíssima brasileira Bilquis Evely.

Uma obra fora da curva. Mas o longa passou longe dela, não só do enredo, mas de toda a carga artística da HQ. O filme tem uma graphic novel aclamada como base e Milly Alcock extremamente carismática no papel, e ainda assim consegue soar genérico em vários momentos, com uma trilha sonora deslocada. O objetivo deveria ser conectar o público a essa nova Kara Zor-El e deixar todo mundo ansioso pelo próximo capítulo. Não foi o que aconteceu.

E é aqui que o fio se fecha. Se nem a aposta mais segura entregou o mínimo, toda a pressão se transfere para o que vem depois. A promessa de Gunn deixa de ser um seguro e vira uma dívida a ser paga.

O QUE ESTÁ EM JOGO DAQUI PARA FRENTE

John Stewart e Hal Jordan em Lanternas
Lanternas – Divulgação / DC Studios

O calendário não dá trégua. Lanternas (Lanterns) chega em agosto carregando a série uma polêmica que começou ainda no trailer, quando os fãs reclamaram da ausência do verde, justamente a cor que define os personagens. 

A discussão rendeu até resposta de Grant Morrison. Em outubro vem Cara-de-Barro (Clayface), uma aposta ousada num vilão pouco conhecido do grande público. E ainda há a série do Gorila Grodd com Jimmy Olsen no horizonte.

O ideal seria que essas produções servissem de ponte para os heróis que a gente quer ver de verdade. Em Cara-de-Barro, queremos sentir a sombra do Batman. No Gorila Grodd, queremos o Flash. Não é cobrança vazia: é assim que um universo se constrói, usando os secundários para abrir as portas dos pilares.

A boa notícia é que ainda existe saída. O próximo Superman promete uma aventura e tanto, colocando o herói e Lex Luthor contra o terrível Brainiac. Se seguir os passos do primeiro filme, tem tudo para reacender a chama.

Mas agradar os fãs, como aconteceu comigo, já não basta. O DCU precisa de um filme que mova multidões, que vire tendência, que não saia da boca do povo. Precisa, mais cedo ou mais tarde, de um ator que faça pela casa o que Robert Downey Jr. fez pela Marvel. Por mais talentoso que David Corenswet seja, esse posto ainda está vago.

Supergirl não afundou o DCU, e seria exagero decretar crise por causa de uma única estreia fraca. Mas o filme cobrou a fatura da promessa de Gunn mais cedo do que se esperava.

O plano de construir devagar, com cuidado, só se sustenta enquanto o público acredita. E a confiança, uma vez gasta, é cara de recuperar. LanternasCara-de-Barro e o duelo com Brainiac em 2027 vão dizer se James Gunn ainda tem crédito ou se vai precisar provar tudo de novo, do zero.

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