O problema da DC com os “filhos” do Superman

Andre Luiz

Poucos heróis são tão definidos pela figura paterna quanto o Superman. Jor-El o salvou colocando-o em uma nave, e Jonathan Kent moldou o caráter do garoto em uma fazenda no interior.

Apesar disso, uma análise publicada pelo site ComicBook.com aponta um padrão incômodo nos quadrinhos da DC. Quase todos os filhos do personagem foram criados para depois sumir.

Uma paternidade que demorou 77 anos

O número impressiona. Foram 77 anos até o herói se tornar pai de forma permanente, com a chegada de Jon Kent. Para efeito de comparação, o casamento com Lois Lane também levou quase seis décadas para acontecer.

Não que faltassem tentativas antes disso. Na chamada Era de Prata, a editora publicava histórias declaradamente imaginárias. Nelas, o herói aparecia rodeado de filhos, sem qualquer intenção de tornar aquilo oficial.

A lista de herdeiros descartados

O primeiro filho considerado canônico foi um jovem metamorfo adotado após a morte do próprio pai. Ele estreou e morreu na mesma edição, o que a análise trata como um sintoma do que viria depois.

Vieram outros. Houve uma filha concebida com outra heroína e uma jovem do futuro criada a partir do material genético do casal. Houve também um filho vindo de uma linha temporal alternativa. Some-se a isso um garoto adotado que era herdeiro do General Zod e um rapaz que, anos mais tarde, se tornaria vilão. Mais recentemente, o casal adotou dois irmãos refugiados de Warworld.

O padrão que se repete

A tese do texto é direta. A editora quer contar histórias sobre o herói como pai, mas evita assumir o compromisso de mantê-lo nessa condição. O resultado é sempre parecido: os personagens morrem, viram vilões ou simplesmente desaparecem sem explicação.

O caso mais citado é o do filho adotivo ligado a Zod. Ele foi envelhecido de forma abrupta e rompeu com os pais adotivos. Acabou do lado errado da história depois de uma daquelas reformulações que apagaram trechos inteiros da continuidade.

O antigo Thunderboy, que viria a se tornar Magog – Reprodução/DC

Os irmãos adotados mais recentes enfrentam problema parecido. Eles praticamente só aparecem nas revistas escritas por um único autor. Nas demais, são ignorados. Isso os transforma, na prática, em personagens de universo paralelo.

Existe uma explicação estrutural para isso. Revistas mensais dependem de um estado de coisas estável, algo que qualquer leitor reconheça ao pegar uma edição pela primeira vez. Filhos crescem, mudam a dinâmica familiar e envelhecem o protagonista, e é justamente esse tipo de alteração que as editoras evitam.

A exceção chamada Jon Kent

Só um herdeiro conseguiu se firmar. Ainda assim, ele também foi envelhecido antes da hora. Passou anos sem função clara antes de assumir o manto do pai em sua própria revista.

Convém apresentar o outro lado do argumento. O receio da editora não é gratuito, já que o personagem é o rosto mais reconhecível da casa. Mudanças definitivas em uma figura desse porte costumam gerar reação intensa entre leitores antigos, e desfazer uma decisão dessas custa caro em credibilidade.

Vale acrescentar uma comparação que a análise não faz. Fora dos quadrinhos, a paternidade funcionou muito bem. Basta lembrar a série de televisão que colocou os filhos do casal no centro da trama por quatro temporadas.

Fica, portanto, a pergunta que o texto original levanta. Se a paternidade é parte essencial do Superman, por que ela segue sendo tratada como experimento temporário?

COMPARTILHE Facebook Twitter WhatsApp

Leia Também


ASSINE A NEWSLETTER

Aproveite para ter acesso ao conteúdo da revista e muito mais.

ASSINAR AGORA