Fim da mídia física no PlayStation preocupa analistas

Vinicius Miranda

Especialistas ouvidos pela CNBC afirmam que a decisão da Sony reduz as opções de quem compra jogos. O mercado de usados, avaliado em bilhões de dólares, deve encolher.

A decisão da Sony de encerrar a produção de mídia física para novos jogos de PlayStation segue rendendo debate na indústria. O anúncio foi publicado em 1º de julho de 2026 no blog oficial da marca e vale a partir de janeiro de 2028. A partir dessa data, todo lançamento inédito para os consoles da empresa será distribuído apenas em formato digital, seja na PlayStation Store, seja no varejo tradicional. Nesse segundo caso, a caixa deve conter apenas um código de download. Jogos lançados em disco antes do prazo não sofrem qualquer alteração.

A ironia de 2013 voltou a circular

Boa parte da repercussão negativa vem de um contraste histórico. Em 2013, durante a disputa com o Xbox One, a Sony transformou a liberdade de emprestar e revender discos em argumento de marketing. Um vídeo curto mostrava um executivo entregando uma caixa de jogo a um colega, ironizando as restrições anunciadas pela concorrente. Na mesma época, executivos da empresa reforçaram em palco que o comprador de um disco de PS4 teria o direito de revendê-lo, emprestá-lo ou guardá-lo para sempre.

A estratégia funcionou. A reação do público ajudou a pressionar a Microsoft, que recuou de suas políticas mais rígidas. Treze anos depois, os mesmos vídeos voltaram a circular nas redes sociais, agora usados contra a própria Sony por usuários que se sentem contrariados.

O que dizem os analistas de mercado

Michael Pachter, diretor administrativo de planejamento estratégico da Wedbush Securities, avaliou à CNBC que a mudança gera alguma economia para a fabricante, mas cobra um preço do consumidor na forma de menos alternativas. Ele estima que historicamente ao menos um terço dos jogos circulou no mercado de segunda mão, e que esse dinheiro costumava voltar para a compra de títulos novos. Na avaliação dele, o varejo físico especializado tende a desaparecer.

Kazunori Ito, diretor de pesquisa de ações da Morningstar, classificou o movimento como irônico, justamente por lembrar a campanha de 2013. Para ele, o mercado de usados deve encolher até sumir. O analista também destacou o ponto que mais incomoda parte do público.

Existe uma diferença importante entre aceitar essa mudança por enxergar valor nela e tê-la imposta pela retirada da alternativa. (tradução livre)

Já Michael Futter, cofundador da consultoria F-Squared, foi mais duro e chamou a decisão de prejudicial ao consumidor. O argumento dele é estrutural. Consoles funcionam como ecossistemas fechados, controlados pelo dono da plataforma, enquanto no PC o jogador pode comparar preços entre Steam, Epic Games Store, GOG e outras lojas. Portanto, comparar as duas transições seria uma simplificação conveniente.

Mercado de usados movimenta bilhões

Os números ajudam a explicar o incômodo. Um levantamento da consultoria Dataintelo estima que o mercado global de jogos, consoles e acessórios de segunda mão movimentou cerca de 7,2 bilhões de dólares em 2025. A projeção aponta para 13,8 bilhões de dólares até 2034, impulsionada pela busca por alternativas mais baratas diante da alta de preços. Vale lembrar que esses valores estão em dólar e que a conversão para reais varia conforme o câmbio, os impostos e a política de preços regionais de cada loja.

Os números da Sony explicam a decisão

Do lado da empresa, a lógica é financeira e bastante direta. Segundo o balanço mais recente da companhia, os downloads digitais responderam por 85% das vendas de jogos completos no PS4 e no PS5, contra 15% das versões em disco. Menos discos significa menos custo de fabricação, logística e estoque, além de margens maiores. Essa tendência não é nova e já aparecia em levantamentos sobre a predominância das vendas digitais nos consoles nos últimos anos.

GTA 6 já antecipa o novo padrão

O caso mais visível dessa transição chega antes mesmo do prazo da Sony. Em junho de 2026, a Rockstar Games confirmou que a edição em caixa de Grand Theft Auto VI não traz disco, apenas um código de resgate. O jogo chega em 19 de novembro de 2026. A decisão é da publicadora, e não da fabricante do console, mas serviu como prévia do modelo que virá. Algumas lojas especializadas em mídia física, inclusive, anunciaram que não venderão o título nesse formato.

O impacto pesa mais no Brasil

Para o público brasileiro, a conta é ainda mais delicada. Aqui, a revenda entre amigos, as lojas de usados e as trocas sempre funcionaram como um alívio diante de preços elevados. Sem disco, esse mecanismo simplesmente deixa de existir. O jogador perde a chance de recuperar parte do valor investido e passa a depender exclusivamente das promoções definidas pela própria loja digital.

Existe ainda a questão da preservação. Jogos presos a lojas digitais correm o risco de sumir quando um servidor é desligado ou quando um contrato de licenciamento expira. Esse tema já preocupa pesquisadores e colecionadores, e aparece até em discussões sobre a sobrevivência de franquias clássicas nos catálogos atuais.

Outras mudanças aumentaram a desconfiança

O anúncio não veio sozinho. No mesmo dia, a Sony informou que a PlayStation Store do PS3 e do PS Vita será encerrada de forma escalonada nos próximos anos. Além disso, a empresa comunicou que centenas de filmes comprados por usuários serão retirados das bibliotecas por questões de licenciamento, sem menção a compensação. Diante desse conjunto, analistas passaram a questionar publicamente quais garantias o consumidor teria sobre os jogos já adquiridos.

Por enquanto, nada indica recuo. Especialistas avaliam que a companhia deve apresentar mais detalhes da transição nos próximos meses. Procurada pela CNBC, a Sony não respondeu aos pedidos de comentário.

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