Como a Rockstar conseguiu colocar GTA 3 nun disco de PS2

Vinicius Miranda

Um vídeo revela a mágica técnica por trás de Liberty City no PlayStation 2. As soluções da Rockstar eram tão engenhosas que ainda são usadas hoje.

Quem viveu a época sabe o impacto que foi jogar “GTA 3” no PS2. Para muitos, aquela experiência foi um verdadeiro divisor de águas no mundo dos games. Antes dele, já existiam títulos em mundo aberto, como “Shenmue”, lançado alguns anos antes no Japão. No entanto, nada se comparava à grandiosidade de Liberty City. Era um sandbox completo, onde o jogador podia explorar tudo e ir a qualquer lugar. Mas você já parou para pensar como a Rockstar conseguiu colocar um mundo tão vasto na memória RAM de apenas 32MB do console?

O desafio impossível no papel

Para entender a proeza, é preciso olhar os números. Em teoria, rodar “GTA 3” no PlayStation 2 parecia uma missão impossível. Afinal, os assets do jogo, ou seja, os modelos e texturas, somavam cerca de 130MB de dados.

Isso representa quase quatro vezes o que o console conseguia armazenar de uma só vez. Portanto, era necessário um verdadeiro passe de mágica para fazer tudo funcionar. E é aí que entra o trabalho de investigação de Mark Brown, do canal Game Maker’s Toolkit.

Em seu vídeo mais recente, ele foi muito além de apenas explicar o processo. Brown obteve o código-fonte de “GTA 3”, reescreveu partes inteiras do programa e recompilou um novo executável. Assim, ele conseguiu revelar o sistema secreto por trás da mágica.

A dança de dados de Liberty City

GTA 3 – Divulgação / Rockstar Games

A solução da Rockstar foi dividir para conquistar. Primeiro, Liberty City foi separada em três grandes ilhas: Portland, Staunton Island e Shoreside Vale. Cada uma delas carregava separadamente, com telas de carregamento rápidas na transição.

Contudo, mesmo uma única ilha era grande demais. Só Portland, por exemplo, exigia de 40 a 50MB de dados. Diante disso, a equipe precisou ir ainda mais fundo na otimização.

A saída foi subdividir cada ilha em milhares de pequenos setores, como uma grade invisível sobre o mapa. Dessa forma, o console carregava na memória apenas os quadrados próximos ao jogador. É a famosa técnica de “streaming”, que carrega os detalhes conforme você se aproxima e os descarta conforme você se afasta.

Agora dá para ver o truque. Em vez de tentar encaixar uma cidade inteira na memória, a Rockstar construiu uma janela móvel que mostra apenas o suficiente da cidade para fazer a ilusão funcionar. Ela secretamente constrói o mundo à sua frente e apaga silenciosamente o mundo às suas costas.

Os truques contra o pop-in e o DVD lento

Claro que essa solução criou novos desafios. Um deles é o famoso “pop-in”, quando os objetos surgem do nada na sua frente. Para disfarçar isso, os desenvolvedores criaram versões de baixa qualidade dos objetos, que apareciam à distância e ganhavam detalhes conforme o jogador se aproximava.

Além disso, havia o problema da velocidade lenta de leitura do DVD do PS2. Segundo o vídeo, a Rockstar otimizou até a posição dos arquivos no disco, agrupando elementos de uma mesma região. Isso reduzia o caminho que o laser precisava percorrer para achar os dados.

Uma das soluções mais curiosas envolveu a velocidade dos carros. Como o jogador podia correr mais rápido do que o disco conseguia carregar, os desenvolvedores impuseram um limite de velocidade. Em certas áreas, eles teriam aumentado sutilmente a resistência do ar dos veículos, o suficiente para o DVD “respirar” sem que ninguém percebesse.

Um legado que vive até hoje

O mais impressionante é que essas ideias não ficaram no passado. Muitos desses métodos ainda são usados atualmente, embora de forma bem mais sofisticada. A técnica de duplicar objetos no disco para agilizar o carregamento, por exemplo, segue viva.

Curiosamente, um jogo moderno como o “Spider-Man”, da Insomniac, usa centenas de cópias do mesmo modelo de caixa de correio espalhadas pelo mapa. Ou seja, o mesmo princípio de otimização de “GTA 3” continua relevante mais de duas décadas depois.

Analisando o cenário, esse mergulho técnico prova o quanto o desenvolvimento de mundos abertos evoluiu. As restrições de hardware da época forçaram uma criatividade genial. Consequentemente, a Rockstar transformou um pesadelo técnico em uma obra-prima que definiu um gênero inteiro.

Para os fãs, entender esses bastidores aumenta ainda mais a admiração pelos clássicos. Não podemos esquecer o legado que “GTA 3” deixou, seguido por sucessos ainda maiores como “GTA: Vice City” e “GTA: San Andreas”. Ambos se tornaram alguns dos jogos mais vendidos do PS2.

Do ponto de vista do mercado, esse conhecimento ajuda a dimensionar a expectativa pelo futuro. Desde então, a Rockstar nunca parou de empurrar os limites, com destaque para “Red Dead Redemption 2” e, claro, o tão aguardado “GTA 6”.

E você, também ficou de queixo caído com a genialidade técnica por trás de Liberty City? Conte para a gente nos comentários!

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