Hideki Kamiya se preocupa mais com a preservação de jogos do que o fim da mídia física

Vinicius Miranda

O fim iminente dos jogos em mídia física nas plataformas modernas continua gerando debates intensos. Hideki Kamiya, o criador de sucessos como Okami, Devil May Cry e Bayonetta, entrou oficialmente na discussão. Para o lendário desenvolvedor, o formato de distribuição atual importa muito menos do que a real preservação da história dos videogames.

Durante uma entrevista recente, o diretor compartilhou suas preocupações de forma franca. Ele estava acompanhado por Kento Koyama, o cofundador do novo estúdio Clovers. Kamiya revelou que seus próprios hábitos de consumo já mudaram bastante. Hoje, ele adquire títulos no formato cem por cento digital. Sendo assim, o provável encerramento da produção de discos não afeta sua rotina pessoal.

A preocupação real com os clássicos do passado

Apesar de sua preferência pelo conforto da loja digital, Kamiya é um fervoroso colecionador de jogos retrô. Sua maior preocupação foca diretamente nas grandes corporações. Ele teme que as empresas não garantam que as propriedades intelectuais continuem disponíveis para as futuras gerações. Com as constantes atualizações de hardware e de licenças, muitos clássicos correm o sério risco de sumir para sempre.

Para mim, a grande questão é se os detentores das marcas vão assumir a responsabilidade de garantir que todos esses jogos continuem disponíveis para as futuras gerações. Se isso será feito física ou digitalmente, é menos importante. O essencial é que eles estejam acessíveis.

O consagrado designer citou a série Arcade Archives como um grande acerto. A iniciativa da desenvolvedora Hamster Corporation mantém velhos títulos de fliperama totalmente acessíveis. Com isso, o público consegue aproveitar obras consagradas sem a dor de cabeça de montar equipamentos elétricos antigos.

A magia insubstituível das edições físicas

Coleção de Hideki Kamiya – Reprodução

Por outro lado, o presidente Kento Koyama apresentou uma visão um pouco mais romântica. Ele admitiu que também consome a maior parte dos lançamentos de jogos em suas versões virtuais. Contudo, Koyama fica extremamente triste com a simples ideia de perder suas grandes prateleiras. Ele sempre faz questão de comprar a versão plástica quando considera uma obra muito especial.

Aproveitando o tom mais saudosista da conversa, Kamiya relembrou um momento marcante. O diretor recordou o dia em que encontrou Satoru Iwata, o saudoso ex-presidente da Nintendo.

Eu levei minha coleção de jogos de Nintendinho que ele trabalhou como programador, como Pinball, Golf e F1 Race. Pedi para ele assinar todos para mim e os exibo com orgulho até hoje. No futuro, as pessoas talvez não consigam mais ter esse tipo de experiência tátil.

O desafio da preservação na era digital

O que a transição completa para as lojas virtuais significa para o futuro da cultura gamer? O alerta de Hideki Kamiya atinge diretamente o ponto fraco do mercado 100% focado em servidores virtuais. Se as produtoras não adaptarem e portarem os seus catálogos clássicos para os hardwares mais modernos, teremos um imenso apagão cultural. Muitas mecânicas e narrativas brilhantes simplesmente deixarão de existir quando as plataformas forem desligadas.

Para o público mais jovem e para os fãs apaixonados, isso representa um enorme prejuízo criativo. Entidades focadas em conservação, como a Video Game History Foundation, já começaram a exigir soluções definitivas das fabricantes de consoles. Manter as bibliotecas ativas vai muito além da simples venda de produtos. É o passo fundamental para respeitar, ensinar e propagar o rico legado que consolidou a bilionária indústria de entretenimento eletrônico de hoje.

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