Indústria musical quer selo de IA em faixas de streaming

Cheyna Corrêa

A proposta cria dois marcadores digitais, nos moldes do aviso de conteúdo explícito. A adesão, porém, seria voluntária por parte de artistas e plataformas.

Mais de três décadas após a criação do famoso selo de conteúdo explícito, a indústria fonográfica quer um novo aviso nas capas das faixas. Um grupo formado por entidades como a RIAA, a IFPI, o Grammy e o sindicato SAG-AFTRA anunciou uma proposta unificada para rotular músicas criadas com inteligência artificial generativa nos serviços de streaming. A iniciativa surge em um cenário alarmante, no qual faixas produzidas por máquinas já representam uma fatia enorme dos novos lançamentos. Entenda como funcionaria o sistema.

Como funcionariam os selos

A ideia é adicionar marcadores digitais nas faixas, seguindo a mesma lógica dos avisos de letras explícitas já usados pelas plataformas. Segundo a proposta, existiriam duas categorias distintas, cada uma com seu ícone.

A primeira, chamada de “IA generativa”, usaria um bloco preto com a sigla em letras grandes. Ela se aplicaria a gravações criadas inteiramente por comandos de texto ou nas quais a máquina produziu os vocais principais e os instrumentos centrais. Já a segunda, de “auxílio de IA”, teria um bloco branco com a sigla menor, sinalizando obras feitas majoritariamente por humanos, mas que usaram a tecnologia em alguns elementos.

Os números que motivaram a proposta

O apelo por transparência não é gratuito. De acordo com as entidades, o Deezer relatou que faixas geradas por IA já correspondem a cerca de 44% de todos os novos uploads na plataforma. Na Apple Music, mais de um terço das músicas enviadas seriam totalmente artificiais.

Há ainda um dado que reforça a urgência do debate. Um estudo encomendado pelo Deezer apontou que a esmagadora maioria dos ouvintes não consegue distinguir uma canção feita por IA de uma composição humana, embora a maior parte deles queira que essas faixas sejam claramente identificadas.

O que dizem as entidades

Em comunicado conjunto, os dirigentes da IFPI e da RIAA argumentaram que os fãs querem saber se e como a tecnologia foi usada nas músicas que ouvem. Para eles, diante da importância da autenticidade e da arte humana, os selos oferecem uma solução de transparência compreensível e fácil de escalar globalmente.

Harvey Mason Jr., presidente da Academia de Gravação, entidade responsável pelo Grammy, também defendeu a medida.

À medida que a IA continua sendo integrada ao processo criativo, artistas e fãs merecem uma forma clara de comunicar como e quando ela está sendo usada. Essa iniciativa garante que a criatividade, a autoria e a intenção artística permaneçam no centro de cada música. (tradução livre)

Os limites da iniciativa

É preciso, no entanto, olhar para as brechas do plano. O sistema é voluntário, ou seja, depende da boa vontade de quem sobe o conteúdo. Como existe um estigma associado à música artificial, artistas podem simplesmente não se autodeclarar, e quem usa a tecnologia para fraudes dificilmente buscará transparência.

Outro ponto é que a rotulagem, ao menos por enquanto, cobre apenas as gravações sonoras. Letras, composição, videoclipes e capas ficam de fora do escopo inicial. Além disso, ainda não há prazo definido para que os serviços de streaming adotem os marcadores.

Por que isso importa para o público?

Do lado dos criadores, a leitura é de defesa do trabalho humano. Empresas de IA musical, contudo, já sinalizaram resistência, argumentando que a decisão sobre como tratar o tema deveria caber a artistas e plataformas, e não a uma regra do setor. É o mesmo tipo de tensão que atravessa o debate sobre IA generativa na indústria dos games.

Para o ouvinte, a mudança seria simples e valiosa: saber, antes de apertar o play, o que exatamente está escutando. Em um mercado cada vez mais saturado, essa informação pode virar critério de escolha, algo que artistas em grandes lançamentos pop tendem a valorizar. E você, acha que o selo deveria ser obrigatório? Comente aqui embaixo!

Fontes: Variety, Deadline, RIAA, IFPI, Music Business Worldwide, The Hollywood Reporter

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