Nerfaram o Homem-Aranha nos quadrinhos? Entenda

Andre Luiz

Toda troca de equipe criativa em uma HQ do Homem-Aranha costuma vir acompanhada de pequenos ajustes na história. Eles geralmente são pensados para facilitar a entrada de novos leitores. Isso pode até funcionar como um recomeço bem-vindo. Tudo depende do que é descartado pelo caminho.

Mas o processo irrita quem acompanha de perto a mitologia construída ao longo de décadas.

O teto de força estabelecido logo na primeira edição

Na atual fase de Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man), assinada pelo roteirista Joe Kelly, um detalhe chama atenção já na primeira edição. Fica estabelecido que arremessar um caminhão contra o Rinoceronte seria o limite máximo da força sobre-humana do herói.

Tecnicamente, isso representa uma redução de poder. Os leitores já viram Peter Parker erguer cargas muito maiores sem tanto esforço em outras histórias. Ainda assim, funciona como um parâmetro interessante. A própria run passa a desafiar esse limite nas edições seguintes.

Uma força que muda de edição para edição

O problema é que a run de Kelly não mantém esse padrão. Na edição de número 35, Peter chega a pedir, meio de brincadeira, gelo e analgésicos. O motivo é sentir dificuldade só para ajudar Luke Cage, que estava supinando dois carros ao mesmo tempo.

A cena chamaria menos atenção se não fosse pelo contraste com capítulos anteriores. Neles, o herói pareceu lidar com pesos muito maiores sem qualquer sinal de cansaço.

Na edição 11, Peter aparece perdido no espaço sideral. Ele colabora com o cientista Xanto Starblood em uma tentativa de ficar mais forte antes de enfrentar novamente o vilão Portal do Inferno. Nessas páginas, o peso que ele levanta parece gigantesco perto do caminhão jogado contra o Rinoceronte. O mesmo vale para os dois carros citados depois.

Reprodução/Marvel Comics

Ironicamente, Peter não chega a se tornar sensivelmente mais forte ao fim desse arco. Ele também não aceita usar o recodificador genético que o cientista havia desenvolvido para potencializar seus poderes.

A força como tema central do arco espacial

A ideia de que Peter precisa ficar fisicamente mais forte está ligada ao tema desse arco no espaço. A trama é construída ao lado de um grupo inusitado de novos aliados. Entre eles está Raelith, a Desprezada, uma das personagens mais cativantes surgidas nessa fase. É justamente ela quem lembra Peter que sua força vem do coração e dos aliados ao seu lado, não apenas dos músculos.

Mesmo Xanto, responsável por criar o recodificador genético, evita usar sua própria invenção nele. Ele recomenda que Peter não a utilize, preocupado com possíveis efeitos colaterais. Ainda assim, a força física do herói nessa fase segue menos impressionante do que em arcos anteriores. Ficou difícil calcular seu real nível de poder de uma edição para outra.

Por que essa inconsistência incomoda tanto

Discussões sobre o nível de força do Homem-Aranha não são novidade entre fãs de quadrinhos. Comparações desse tipo já geraram debates acalorados sobre o personagem em diferentes eras. O problema, dessa vez, é outro. Não está em comparar a run atual com fases antigas, e sim em como a própria run se contradiz internamente em poucos meses.

Isso enfraquece a sensação de continuidade que Kelly parecia querer construir. Chama atenção principalmente depois de apresentar um grupo tão querido quanto o formado por Raelith e companhia, algo que lembra outras equipes cósmicas da Marvel, como os Guardiões da Galáxia nos quadrinhos.

Para o leitor casual, talvez esses detalhes passem despercebidos. Mas para quem acompanha o Homem-Aranha desde sua estreia nos quadrinhos, em 1962, esse tipo de deslize junta-se a uma longa lista de ajustes. Eles fogem do que já foi estabelecido sobre os poderes do herói desde sua origem. Resta saber se os próximos capítulos vão corrigir o rumo.

Por ora, o público segue sem saber, ao certo, até onde vai a força de Peter Parker.

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