Metal Gear Solid 4 prova que furtividade não é modinha

Vinicius Miranda

Metal Gear Solid 4 é um dos três títulos da série disponíveis em Master Collection Vol. 2. O jogo serve como um ótimo lembrete. A furtividade pode ser muito mais do que um recurso passageiro dentro de um game. Entre todos os títulos da franquia, Metal Gear Solid 4 é uma entrada que divide opiniões, apesar das críticas elogiosas na época do lançamento.

Ainda assim, o jogo é mais um diamante bruto do que muitos jogadores costumam reconhecer. Apesar de horas de cutscenes e de uma narrativa às vezes confusa, marca registrada de Hideo Kojima, o jogo brilha justamente pela sua jogabilidade voltada à furtividade.

Furtividade opcional, mas fortemente recompensada

A jogabilidade de Metal Gear Solid 4 não exige necessariamente uma abordagem furtiva radical. O jogo permite que os jogadores encarem situações de forma mais agressiva, caso prefiram. Ainda assim, o modo como o título abraça a furtividade é algo que já não se vê com tanta frequência atualmente.

Muitos jogos modernos tratam a furtividade mais como um estilo de jogo opcional do que como o coração da jogabilidade. Furtividade não precisa ser entediante. Metal Gear Solid 4 é um exemplo perfeito de como ela pode gerar uma experiência fantástica.

Por que o incentivo à furtividade precisa voltar

Metal Gear Solid 4
Metal Gear Solid 4 – Divulgação / Konami

Mesmo que Snake possa ser jogado de forma mais agressiva, Metal Gear Solid 4 deixa claro que prefere um estilo de jogo específico. Ser barulhento ou agressivo demais no jogo afeta os níveis de Estresse e Psique do personagem. Isso impacta negativamente toda a jogabilidade. Quando Snake fica muito estressado e sua Psique despenca, sua precisão de mira piora. A regeneração de sua vida também fica significativamente mais lenta. É um equilíbrio interessante. O jogo permite abordar cada cenário como o jogador quiser. Mas uma das abordagens tem uma lista bem mais visível de desvantagens.

Ou seja, mesmo que a furtividade não seja obrigatória, ela cumpre um papel central. Ela é a forma pretendida de vivenciar a história de Metal Gear Solid 4. Furtividade nem sempre agrada a todo mundo. Por isso, a franquia insiste em incentivar uma experiência de ação mais lenta. Esse estilo segue rompendo com o padrão dos jogos de ação convencionais há quase três décadas.

Jogos que chegaram perto, mas não exatamente lá

Um dos lançamentos mais recentes que lembra o foco em furtividade de Metal Gear Solid 4 é 007 First Light. A principal diferença é que o jogo do agente 007 não traz os mesmos efeitos negativos quando o jogador opta por uma rota mais agressiva. Reforços chegam e dão trabalho para James Bond, mas isso é praticamente tudo. Uma grande semelhança entre os dois jogos, porém, é clara. Ambos deixam evidente que os desenvolvedores pretendiam priorizar a furtividade.

007 First Light tem bastante ação, mas muitas das fases funcionam como quebra-cabeças. Elas exigem furtividade para serem completadas com sucesso. É possível atravessar uma área atirando sem parar. Fica mais difícil, porém, apreciar o design das fases dessa forma. As fases do jogo são criativas. Elas incentivam os jogadores a pensar fora da caixa, brincando com os cenários. Isso torna a rota mais calma ainda mais atrativa do que simplesmente socar e atirar em tudo pela frente.

A chegada histórica à Master Collection Vol. 2

Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 marca a primeira vez que Metal Gear Solid 4 chega a uma plataforma além do PlayStation 3. Trata-se de um dos melhores exclusivos do console. É empolgante ver o jogo finalmente chegando a consoles modernos e ao PC. Acompanham Metal Gear Solid 4 na coletânea os títulos Metal Gear Solid: Peace Walker e Metal Gear: Ghost Babel.

Vale destacar também a IO Interactive. O estúdio já era referência em jogos de furtividade bem antes de 007 First Light chegar ao mercado. A franquia Hitman está entre os jogos mais focados em furtividade que existem. A maior diferença em relação à abordagem de Metal Gear Solid 4 é simples. Este último ainda mantém ambientes bastante voltados à ação. Já Hitman aposta em uma experiência de espionagem mais contida.

Uma história de guerra que não precisa de ação constante

O complexo industrial-militar e os horrores da guerra sempre estiveram no centro da mitologia de Metal Gear Solid. Ainda assim, a franquia consegue explorar esses temas sem depender de tiroteios constantes. A duração das cutscenes pode dividir os jogadores. Mesmo assim, elas ajudam a construir uma narrativa de guerra interessante, mesmo quando o enredo fica um pouco confuso.

Outros títulos combinaram furtividade e ação de formas interessantes. Bons exemplos são The Last of Us e a série Dishonored. A furtividade pode ser vital para a sobrevivência em The Last of Us. Já Dishonored adota uma abordagem interessante. Nele, jogar de forma furtiva ou agressiva afeta o mundo do jogo como um todo. Uma campanha focada em furtividade em Dishonored resulta em um final mais positivo. Depender de assassinatos, por outro lado, abre caminho para o final ruim do jogo.

O legado que Metal Gear Solid 4 deixa

Metal Gear Solid 4 não é um jogo perfeito, de forma alguma. Ainda assim, funciona como um verdadeiro modelo. Ele mostra como grandes jogos de ação podem abraçar mecânicas de ritmo mais lento e ainda assim se manterem profundamente interessantes.

Alguns dos melhores jogos de furtividade que existem ainda não apostam tão fortemente nessas mecânicas. Misturar ação e furtividade é um equilíbrio difícil de acertar. O jogo, porém, encontra o ponto ideal. Ele incentiva o jogador a se agachar e se esconder atrás de paredes durante muitas de suas sequências mais intensas de tiroteio.

Metal Gear Solid 4 ficou preso ao mundo do PlayStation 3 por tantos anos. Por isso, essa também pode ser a primeira vez que muitos jogadores mais jovens experimentam esse capítulo específico da série. O mesmo vale para quem nunca teve um PS3.

Será fascinante ver como esse público reage à abordagem do jogo em relação à furtividade. Outros momentos famosos do gênero ajudaram a dar uma reputação um tanto negativa a esse tipo de jogabilidade em jogos de ação ao longo dos anos. Metal Gear Solid 4 agora tem a chance de mostrar um lado diferente. O jogo prova que furtividade e ação podem, sim, funcionar muito bem juntas.

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