Trabalhadores demitidos e apoiadores sindicais se reuniram diante da sede da Build a Rocket Boy durante um evento pago para fãs. A empresa acumula demissões em massa desde o lançamento desastroso do jogo.
Um protesto organizado por ex-funcionários tomou a frente da sede da Build a Rocket Boy no último sábado, dia 11 de julho, em Leith, distrito de Edimburgo, na Escócia. O ato aconteceu enquanto o estúdio responsável por MindsEye recebia um grupo de fãs para um evento de testes. A manifestação foi convocada pelo Independent Workers Union of Great Britain (IWGB), sindicato que representa parte dos trabalhadores da empresa. Segundo os organizadores, cerca de 20 pessoas participaram.
Do que o sindicato acusa a empresa
A crítica central é direta. De acordo com o IWGB, a Build a Rocket Boy custeou passagens aéreas e hospedagem para levar fãs até a Escócia, onde eles testariam novos recursos do jogo. Para o sindicato, esses jogadores estariam desempenhando funções que, em condições normais, caberiam a profissionais de controle de qualidade. Ou seja: pessoas demitidas.
Os números de desligamentos variam conforme a fonte. O sindicato estima que mais de 400 trabalhadores tenham sido dispensados no acumulado, enquanto outros levantamentos apontam entre 250 e 300 desde junho de 2025. Uma rodada realizada em maio deste ano teria atingido cerca de 170 pessoas. Vale destacar que se trata de estimativas e não de dados oficiais divulgados pela empresa.
Spring McParlin-Jones, que preside o braço de trabalhadores de games do IWGB, afirmou em nota que o evento representa desperdício de recursos e um golpe duro para quem perdeu o emprego. A entidade classificou a ação como um gesto de aparência, custeado enquanto o quadro de funcionários encolhia.
A fala dos trabalhadores
Entre os presentes estavam ex-integrantes da própria Build a Rocket Boy e também da Rockstar Games. O ex-funcionário Isaac Hudd discursou durante o ato e resumiu o sentimento do grupo.
Estamos aqui hoje porque todos nós acreditamos em uma coisa: que trabalhadores de jogos merecem ser tratados com respeito. (tradução livre)
Em sua fala, Hudd descreveu um período de trabalho extenuante que antecedeu o lançamento do jogo e afirmou que muitos profissionais nos escalões mais baixos já previam o fracasso. Ele relatou ainda que, após a repercussão negativa, a liderança teria permanecido em silêncio antes de anunciar os cortes. O ex-funcionário Ben Newbon, também citado pelo sindicato, declarou que os trabalhadores tinham ambição de construir um estúdio capaz de dar prestígio à indústria escocesa de games.
É importante frisar que essas são versões apresentadas pelos trabalhadores e pelo sindicato. A Build a Rocket Boy não havia se manifestado publicamente sobre o protesto até o fechamento desta matéria.
Como MindsEye chegou até aqui
Lançado em junho de 2025, MindsEye registrou nota 39 no Metacritic na versão de PC e 29 no PlayStation 5. Foi o jogo pior avaliado do ano. O projeto era comandado por Leslie Benzies, ex-produtor de Grand Theft Auto III até Grand Theft Auto V, e por Mark Gerhard, ambos codiretores executivos da empresa.
Durante uma das rodadas de demissão, Gerhard chegou a sugerir publicamente que o fracasso comercial teria relação com atividade criminosa, incluindo suposta espionagem organizada e sabotagem corporativa. O estúdio depois lançou uma missão adicional chamada Blacklisted, prometendo compartilhar indícios dessa alegada sabotagem com a comunidade. O conteúdo não parece ter alterado a percepção do público sobre o jogo.
Há ainda um capítulo jurídico em aberto. Trabalhadores representados pelo IWGB buscam medidas legais contra a empresa, alegando, entre outros pontos, a instalação de software de monitoramento nos computadores dos funcionários. As acusações não foram comprovadas judicialmente e a companhia não apresentou resposta pública detalhada até agora. Portanto, todos esses pontos devem ser lidos como alegações em disputa.
Um retrato da crise na indústria

O caso da Build a Rocket Boy dificilmente pode ser tratado como episódio isolado. A indústria de games atravessa um ciclo prolongado de demissões em massa, e o padrão tende a se repetir: um projeto ambicioso demais, um período de trabalho intenso, um lançamento problemático e, na sequência, a conta paga pelos profissionais dos escalões operacionais. São pessoas com contas, famílias e carreiras interrompidas.
O que torna esse caso particularmente delicado é o contraste simbólico. De um lado, centenas de desligamentos. Do outro, um evento com passagens e hospedagem custeadas para fãs testarem o produto. Ainda que a empresa possa argumentar que o valor gasto é irrelevante diante da folha de pagamento, a leitura pública é inevitável, e ela machuca quem ficou pelo caminho.
Para o mercado britânico, o episódio também acende um alerta sindical. A organização de trabalhadores de games no Reino Unido vem ganhando força, e casos como esse funcionam como combustível. Se o movimento avançar, estúdios talvez precisem repensar não apenas a gestão de crises, mas a própria relação com quem faz os jogos.
Sem posicionamento oficial do estúdio, o desfecho permanece incerto. O IWGB afirma que pretende manter a pressão e transformar o caso em símbolo de uma pauta maior: a de que maus tratos não devem sair impunes na indústria britânica. Enquanto isso, dezenas de profissionais seguem tentando recolocação em um mercado que, neste momento, oferece poucas portas abertas.






Seja o primeiro a comentar