Ubisoft diz que remakes dão mais lucro que jogos novos

Vinicius Miranda

O diretor financeiro da empresa explicou por que refazer clássicos rende margens melhores. O sucesso do novo Black Flag reforçou a aposta, mas nem tudo no balanço foi positivo.

A Ubisoft encontrou no passado uma saída para o presente. Durante a divulgação dos resultados do primeiro trimestre do ano fiscal, o diretor financeiro Frédérick Duguet afirmou que remakes ambiciosos podem entregar margens superiores às de jogos totalmente novos. O argumento veio embalado pelo desempenho de Assassin’s Creed Black Flag Resynced, lançado em 9 de julho de 2026, que superou em duas semanas as expectativas de venda previstas para o ano inteiro.

Os números do novo Black Flag

Os dados divulgados pela empresa impressionam. Foram 3,5 milhões de unidades em 14 dias, marca acima da projeção anual da companhia para o título. O jogo também alcançou nota 84 no Metacritic e no OpenCritic.

Segundo a publicadora, trata-se do jogo mais bem avaliado da série desde o Black Flag original, de 2013. No PC, o título registrou o melhor desempenho da história da franquia, com cerca de 105 mil jogadores simultâneos na Steam.

Uma ressalva importante sobre o número

Vale um esclarecimento técnico que costuma se perder. O relatório oficial usa o termo unidades vendidas para o canal de distribuição, o chamado sold-in. Isso inclui cópias enviadas ao varejo e não corresponde necessariamente ao total já adquirido por consumidores finais. É uma métrica comum no setor, mas convém não tratá-la como venda direta ao público.

Por que refazer um clássico sai mais barato

Assassin’s Creed: Black Flag Resynced – Divulgação / Ubisoft

A explicação do executivo tem três pilares. O primeiro é o reaproveitamento de material do jogo original, o que reduz bastante o custo de produção, mesmo com a adição de sistemas novos, recursos modernos e tecnologia atual.

O segundo envolve marketing. Como o público já conhece a marca, a empresa não precisa gastar o mesmo tanto para apresentar o produto. O terceiro é o preço, já que remakes costumam custar menos que um lançamento completo. Somando os três fatores, o executivo descreveu o resultado como um perfil econômico diferente do habitual.

Apesar do sucesso, a previsão não subiu

Aqui está o dado que a maioria das manchetes deixou de fora. Mesmo com o desempenho acima do esperado, a Ubisoft optou por não elevar suas projeções financeiras para o período seguinte.

A justificativa apresentada é a forte concorrência prevista para os próximos meses, incluindo os próprios lançamentos da casa. Ou seja, a empresa comemora o resultado, mas mantém a cautela no discurso com investidores.

Projetos grandes foram empurrados para 2028 e 2029

Assassin’s Creed Hexe – Divulgação / Ubisoft

Outro ponto relevante apareceu quando o executivo foi questionado sobre o futuro. Segundo ele, algumas produções de grande porte foram remanejadas para os anos fiscais de 2028 e 2029, com o objetivo de melhorar a qualidade em um mercado que ele descreveu como mais seletivo.

O balanço também registra queda nas reservas líquidas na comparação anual, explicada pela base elevada do mesmo período do ano anterior, quando o lançamento de Assassin’s Creed Shadows ainda pesava nos números. A companhia informou ainda que avalia opções de financiamento para lidar com vencimentos de dívida no curto prazo.

A fila de remakes continua

A estratégia não para por aqui. Em 1º de outubro de 2026 chega Rayman Legends Retold, remake que marca os 30 anos da franquia e reimagina o jogo de plataforma em três dimensões. O projeto é conduzido pelos estúdios da empresa em Montpellier e em Milão.

Também está previsto Just Dance Decades of Hits, marcado para 13 de outubro. A publicadora menciona ainda outros títulos baseados em marcas conhecidas, que seriam anunciados mais adiante, sem revelar quais.

Uma aposta que resolve o curto prazo

A lógica financeira é difícil de contestar. Refazer um clássico querido reduz risco, custo e esforço de divulgação ao mesmo tempo, algo especialmente valioso para uma empresa que vem enfrentando dificuldades financeiras e reestruturações. Não à toa, o remake do jogo pirata já aparecia entre os planos discutidos internamente quando a companhia traçou uma década de projetos para a franquia.

Por outro lado, existe um limite claro nessa estratégia. Catálogos antigos não são infinitos, e depender deles adia a construção de novos sucessos. O próprio adiamento de grandes produções para 2028 e 2029 mostra que a empresa comprou tempo, e não necessariamente uma solução. O teste real virá quando os clássicos acabarem.

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