Nintendo criou jogos pensando nos filmes de Mario

Vinicius Miranda

Shigeru Miyamoto revelou que ao menos três títulos recentes nasceram para acompanhar as animações do encanador. A lógica também funcionou no sentido inverso, com jogos moldando os filmes.

Os bastidores da estratégia da Nintendo acabam de ficar mais transparentes. Em entrevista à revista japonesa Famitsu, Shigeru Miyamoto, lendário criador de Mario, confirmou que pelo menos três jogos da empresa foram desenvolvidos com os dois filmes de Super Mario em mente, planejados para garantir que o público tivesse títulos novos dos personagens em destaque nas telonas.

A revelação confirma suspeitas antigas dos fãs. Desde a estreia de Super Mario Bros. O Filme (The Super Mario Bros. Movie), em 2023, e da sequência espacial lançada em abril deste ano, a comunidade notava uma sincronia suspeita entre o calendário de jogos e as aparições no cinema.

Os três jogos nascidos do cinema

O caso mais evidente é o remake de Star Fox. Segundo Miyamoto, o projeto nasceu justamente para capitalizar a popularidade em potencial de Fox McCloud após sua inclusão surpresa em Super Mario Galaxy: O Filme (The Super Mario Galaxy Movie). Nas palavras do criador, parafraseando a lógica interna da empresa, a ideia de colocar Fox no roteiro veio acompanhada da conclusão de que seria preciso fazer um novo jogo da série.

Os outros dois exemplos seguem o mesmo raciocínio. Princess Peach: Showtime foi criado com o primeiro filme em mente, enquanto Yoshi and the Mysterious Book começou a ser desenvolvido assim que ficou decidido, ainda cedo na produção, que Yoshi teria papel de destaque na sequência, garantindo um jogo disponível do dinossauro verde.

Super Mario Galaxy: O Filme – Divulgação / Illumination/Nintendo

A via de mão dupla entre jogos e filmes

O detalhe mais interessante da entrevista talvez seja o caminho inverso. Miyamoto contou que a produção do primeiro filme e o desenvolvimento de Princess Peach: Showtime começaram praticamente ao mesmo tempo, e que isso gerou conversas internas sobre tornar a princesa mais ativa também no longa, já que o jogo a colocava como protagonista de ação.

O resultado todo mundo viu. A Peach do cinema trocou o papel de donzela em apuros por uma postura combativa, mudança elogiada pelo público e que, agora se sabe, teve dedo direto do planejamento cruzado entre as equipes. Para o futuro, o criador afirmou que a empresa pretende continuar mantendo uma relação positiva entre os jogos e as demais iniciativas de mídia, avaliando caso a caso.

A regra de ouro dos crossovers

Miyamoto também aproveitou para explicar por que as participações de Fox e dos Pikmin no novo filme não significam um festival de crossovers daqui em diante. Ele revelou a diretriz interna que rege as franquias da casa.

Basicamente, as propriedades da Nintendo seguem a regra de que personagens de mundos diferentes não devem se cruzar, com a exceção sendo Smash Bros. (tradução livre)

Segundo ele, os Pikmin ganharam um salvo-conduto especial e podem aparecer no mundo de qualquer outro personagem. Já a quebra da regra com Fox só aconteceu porque havia uma razão narrativa convincente, somada à percepção de que, como em um mangá, o crossover deixaria a história mais interessante. A decisão, admitiu, rompeu uma tradição de anos, mas foi surpreendentemente bem recebida.

Samus fica de fora, por enquanto

Quem sonha em ver a caçadora de recompensas de Metroid dividindo a tela com o encanador pode ir segurando a expectativa. Miyamoto ponderou que a aparição de personagens como Samus complicaria demais as coisas, deixando claro que não se trata de simplesmente jogar tudo na tela.

Ele lembrou ainda que a empresa segurava esses cruzamentos por dois motivos práticos: uma vez aberta a porteira, não haveria mais fim, e o licenciamento de produtos derivados ficaria mais complicado. É a cautela característica de uma companhia que colocou o próprio Miyamoto no centro da produção dos filmes justamente para proteger seus personagens.

Fox McCloud em Super Mario Galaxy: O Filme – Divulgação / Illumination/Nintendo

A confissão de Miyamoto muda a forma de olhar para o calendário da Nintendo. A partir de agora, cada anúncio de jogo pode ser lido também como pista do que vem no cinema, e vice-versa, transformando os fãs em detetives de uma estratégia integrada que começou desde os primeiros trailers recheados de referências do longa de 2023.

No fim, todo mundo sai ganhando. O cinema apresenta os personagens a públicos gigantescos, os jogos capitalizam o interesse recém-criado, e a Nintendo mantém o controle rígido que evita a banalização de seu panteão. Se a fórmula seguir rendendo jogos novos de séries adormecidas, como aconteceu com Star Fox, dificilmente alguém vai reclamar.

COMPARTILHE Facebook Twitter WhatsApp

Leia Também


ASSINE A NEWSLETTER

Aproveite para ter acesso ao conteúdo da revista e muito mais.

ASSINAR AGORA