Palworld: estúdio diz não à IA porque ‘gamers não querem’

Vinicius Miranda

A Pocketpair cravou sua posição contra a inteligência artificial generativa nos games. E o motivo, segundo o estúdio, é simples: o público rejeita a tecnologia.

Enquanto vários estúdios abraçam a inteligência artificial generativa, a Pocketpair decidiu remar na direção oposta. A desenvolvedora de “Palworld” reforçou que não pretende usar a tecnologia em seus jogos. A declaração veio de John Buckley, chefe de publicação e comunicação da empresa, em entrevista ao site GamesRadar+. Para ele, a conversa sobre o tema praticamente se encerra na vontade do público. Essa postura firme reacende um dos debates mais quentes da indústria atual.

Os jogadores não querem isso. E, se os jogadores não querem, acho que é isso, né? Não há muito o que discutir.

Por que a Pocketpair dispensa a tecnologia

O motivo da recusa, no entanto, vai além da reação do público. Buckley destaca um ponto bem prático ligado à equipe interna. Segundo o executivo, a empresa simplesmente não precisa da ferramenta. Afinal, os profissionais da casa gostam de criar com as próprias mãos.

Temos muitos artistas internos. Eles gostam de fazer as coisas por conta própria. Não há razão para dispensá-los só para que uma IA faça o trabalho. Parece algo sem sentido.

Vale lembrar que a Pocketpair conhece bem essa polêmica. Logo após o estouro de “Palworld”, o estúdio precisou negar acusações de que teria usado IA para criar suas criaturas. Na época, a empresa rebateu os boatos com firmeza, como o Ei Nerd mostrou ao detalhar a resposta dos desenvolvedores às acusações de uso de IA. Por isso, o tema é especialmente sensível para a equipe.

A polêmica esquentou no Summer Game Fest

O assunto não surgiu do nada. Durante o Summer Game Fest deste ano, alguns jogos precisaram correr para explicar o uso de IA. O retorno de “Crazy Taxi” e o novo “Tomb Raider” foram alvos de críticas e preocupação de parte dos fãs. Diante da reação negativa, os estúdios tentaram esclarecer como a tecnologia teria sido aplicada.

A guerra dos selos: Steam contra Epic

Esse clima de desconfiança também chegou às lojas digitais. A Steam passou a exigir avisos obrigatórios sobre o uso de IA no rodapé das páginas dos jogos. Para muitos consumidores, qualquer menção à tecnologia já vira motivo de rejeição. Por outro lado, nem todo mundo concorda com essa transparência.

O CEO da Epic Games, Tim Sweeney, se posicionou contra a etiqueta de IA da Steam. Segundo ele, esse tipo de aviso não faria sentido, pois a IA estaria envolvida em quase toda produção futura. Não por acaso, a loja da Epic não adota o mesmo selo. Assim, duas das maiores plataformas do mundo seguem em lados opostos do debate.

O “mercado da autenticidade” e o aviso distópico

Buckley levanta ainda uma reflexão curiosa sobre o futuro. Para ele, pode surgir um verdadeiro “mercado da autenticidade”. Nesse cenário, criadores passariam a destacar de propósito que seus jogos são totalmente feitos por humanos. A ideia serviria tanto para acalmar os fãs quanto para se diferenciar das obras geradas por máquina.

Acho que todos deveríamos presumir que os jogos são feitos por humanos, a menos que se diga o contrário. Vai chegar a um ponto em que teremos de colocar um aviso na Steam: ‘Este jogo foi feito por humanos’. É meio triste pensar nisso.

O incômodo com os assets de IA

O executivo também comentou sobre o que tem visto no Steam Next Fest. Esse evento reúne milhares de demos de desenvolvedores em busca de público. Ultimamente, porém, Buckley nota um número crescente de imagens e recursos gerados por IA por lá. A reação dele ecoa a de muitos jogadores.

Até eu, que sou da indústria, pensei: ah, por quê? O resto do seu jogo está ótimo. Você precisava mesmo disso?

Os números reforçam essa impressão. Em uma edição recente do Next Fest, milhares de demos foram publicadas, e quase 1.700 delas usavam algum tipo de IA. Para Buckley, esse tipo de escolha tende a gerar a mesma pergunta entre o público por um bom tempo. A dúvida, segundo ele, será sempre se aquilo era realmente necessário.

Um racha regional a caminho

Por fim, o executivo aponta diferenças culturais importantes. Como veterano de uma empresa japonesa, ele reconhece que alguns mercados são mais abertos à tecnologia. Analistas e outros desenvolvedores sugerem que China e Coreia do Sul tendem a experimentar a IA mais rápido. A Shift Up, de “Stellar Blade”, é um exemplo citado, já que seu CEO defendeu o uso da ferramenta para competir com o poderio de estúdios de China e Estados Unidos. Vale notar, no entanto, que não há indícios de arte gerada por IA na sequência revelada, “Stellar Blade: Blood Rain”.

A análise final aponta para um embate inevitável. Para Buckley, o choque entre essas visões deve ficar mais intenso nos próximos dois a três anos. No Ocidente, em especial, a resistência à IA deve continuar forte por um bom tempo. Para os fãs, ver um estúdio do tamanho da Pocketpair defender o trabalho humano soa como um respiro. Resta saber se essa postura vai virar tendência ou se a pressão por eficiência vai falar mais alto. Por enquanto, “Palworld” chega à versão 1.0 em 10 de julho de 2026, carregando essa bandeira.

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