Poucos filmes conquistaram tanto prestígio quanto O Silêncio dos Inocentes. A obra segue sendo o único filme de terror da história a levar o Oscar de Melhor Filme. Jodie Foster entrega uma de suas melhores atuações como a agente novata Clarice Starling.
Existe, porém, uma camada da produção que passa despercebida pela maioria do público. Ela está embutida diretamente na forma como Jonathan Demme decidiu enquadrar cada cena.
Closes que colocam o público no lugar de Clarice
Demme é conhecido por seu uso de closes dramáticos. Personagens costumam olhar diretamente para a câmera em seus filmes. Esse estilo certamente contribui para o clima perturbador da obra. Olhando mais a fundo, porém, fica claro algo importante: essa escolha vai muito além de um simples recurso estético.
Trata-se de uma forma de centralizar a narrativa no machismo vivido por Clarice. Isso acontece sem transformar o tema no foco explícito da trama.
Ao longo do filme, diversos personagens falam olhando quase diretamente para a lente. Isso cria uma perspectiva forçada. Parece que o próprio espectador é a pessoa sendo interpelada. Boa parte desses personagens se dirige a Clarice. Por isso, o público literalmente assume o ponto de vista dela. Muitos deles se mostram hostis com a jovem agente sem qualquer motivo aparente. O único motivo real é o simples fato de ela ser uma mulher.
Um olhar masculino sempre presente
Além dos closes, a forma como as cenas são montadas evidencia algo perturbador. Mostra como os homens do filme encaram Clarice. É praticamente impossível encontrar uma cena em que algum homem não esteja objetificando a protagonista de alguma forma.

Hannibal Lecter leva isso a um nível ainda mais direto. Questiona Clarice se ela sente “olhos percorrendo seu corpo”. Isso acontece durante o encontro final entre os dois. Até aquele ponto do filme, o público já testemunhou esses mesmos olhares. Eles apareceram em praticamente todas as cenas anteriores.
Da cena da academia ao elevador revelador
A cena de abertura mostra Clarice correndo sozinha por um circuito de obstáculos em Quantico. Ela já sugere certa fragilidade apesar de todo o treinamento. Existe, porém, outra cena bem menos comentada que reforça ainda mais essa sensação de vulnerabilidade.
Essa cena acontece num elevador, bem no início do filme, e não carrega qualquer peso real na trama. Clarice aparece pequena, vestida de cinza, cercada por homens muito maiores vestidos de vermelho. Muitos deles olham para baixo, literalmente, encarando-a de cima. O efeito beira o cômico, mas carrega um desconforto evidente.
Um filme que não muda, mas se aprofunda
O mais interessante nessa análise de enquadramento é algo simples. Ela não altera em nada o funcionamento da trama original. A história continuaria sendo o mesmo thriller de terror bem construído, mesmo sem essa perspectiva em particular. Com essa camada extra, porém, o filme ganha um horror adicional, cotidiano. Existe uma constatação incômoda por trás disso. Enquanto Clarice tenta deter um predador, ela e todas as mulheres seguem cercadas por muitos outros.
A relação entre Clarice e Lecter segue rendendo material rico para adaptações e discussões acadêmicas até hoje, mesmo com um erro de continuidade cometido pela série derivada Clarice em relação ao filme original. A mitologia de Hannibal Lecter também já se expandiu bastante através de outras produções televisivas, como a série Hannibal, que eventualmente adaptou a própria história de O Silêncio dos Inocentes.



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