Roteirista de Supergirl explica como tirou Kara da sombra do Superman

Vinicius Miranda

Em coletiva no Rio de Janeiro, Ana Nogueira revelou que construir uma Kara independente do primo foi uma decisão corajosa apoiada por James Gunn e Peter Safran desde o início.

Uma das perguntas mais recorrentes sobre o novo filme “Supergirl” envolve justamente o elefante na sala: Superman. Em praticamente todas as versões anteriores, Kara Zor-El sempre foi apresentada, em alguma medida, como uma extensão do primo. A roteirista Ana Nogueira enfrentou esse desafio de frente. E em entrevista durante a coletiva de imprensa realizada no Rio de Janeiro, ela explicou como construiu uma heroína que existe por conta própria.

A coragem de redefinir a personagem

Supergirl – Divulgação / DC Studios

Quando questionada sobre o processo de escrever uma Kara que não se define apenas pela relação com o Superman, Nogueira não hesitou. Segundo ela, a abordagem não partiu de uma decisão isolada. A escritora contou que James Gunn e Peter Safran, chefes da DC Studios, já chegaram com essa visão e a trouxeram justamente para concretizá-la.

Foi uma alegria e um sonho realizado. E eu me senti muito sortuda porque Peter e James intuitivamente já estavam nessa linha. Eles não tinham medo dessa caracterização dela. Achei muito corajoso da parte deles querer fazer essa versão da Kara.

A fala da roteirista revela algo importante sobre a filosofia do novo DCU. A decisão de apresentar uma Supergirl independente não foi um ajuste de roteiro. Foi uma escolha editorial desde o início do projeto. Tanto Gunn quanto Safran enxergaram o filme como o segundo pilar do novo universo, e a construção de uma Kara autônoma fazia parte desse plano.

Superman importa, mas é apenas uma peça

Nogueira deixou claro que a relação com Clark Kent não foi ignorada. Ela está presente no filme e faz parte da narrativa. Porém, a roteirista defende que reduzir a personagem a esse vínculo não seria justo nem honesto.

Não defini-la apenas pela relação com o Clark é, na minha opinião, simplesmente honesto. Todos nós somos produto de todos os nossos relacionamentos, de todas as coisas que nos acontecem. E sim, a relação dela com o Clark, com o Superman, importa e está no filme e na história, mas é apenas uma peça. Eu me senti muito sortuda por poder explorar todas as peças da vida dela, da personalidade dela, do passado dela. Porque, assim como todos nós, ela é uma tapeçaria de todas essas coisas.

A metáfora da tapeçaria é reveladora. Nogueira enxerga Kara como uma personagem formada por múltiplas camadas: sua origem em Krypton, a destruição do planeta, os traumas, os vínculos afetivos, as escolhas e as falhas. Superman é um fio desse tecido. Não o tecido inteiro.

Um reflexo do trabalho de Milly Alcock

Milly Alcock no Supergirl Fan Fest – Divulgação / Ei Nerd

Essa visão da roteirista dialoga diretamente com o que a protagonista Milly Alcock já havia declarado em entrevistas anteriores. A atriz afirmou que abordou a Kara de maneira independente do Clark, o que tornou as cenas entre os dois personagens mais interessantes justamente pela fricção natural entre eles.

Nogueira, por sua vez, também revelou durante o evento no Rio que precisou fazer cortes difíceis na adaptação da HQ “Supergirl: Mulher do Amanhã” (Supergirl: Woman of Tomorrow), escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely. A obra original, vasta e cheia de nuances, precisou ser condensada para caber em um longa-metragem. Ainda assim, a essência da personagem como protagonista autossuficiente permaneceu intacta.

A declaração de Ana Nogueira carrega um peso que vai além do filme em si. No universo dos super-heróis, personagens femininas historicamente foram definidas por suas conexões masculinas. Supergirl era a “prima do Superman”. Batgirl era a “versão feminina do Batman”. Esse padrão persistiu por décadas nos quadrinhos e nas adaptações.

Ao construir uma Kara que se sustenta por conta própria, o novo DCU envia um recado ao público. A Supergirl deste filme não precisa do Superman para justificar sua existência na tela. Ela tem passado, motivações, falhas e uma jornada que pertencem exclusivamente a ela.

Isso também fortalece o universo compartilhado como um todo. Se cada personagem depende de outro para fazer sentido, a estrutura se torna frágil. Porém, se cada um funciona de forma independente, o encontro entre eles ganha mais valor. É exatamente o que Nogueira propõe ao tratar Superman como “apenas uma peça” na tapeçaria de Kara.

Para os fãs que acompanham a construção do DCU desde “Superman” (2025), essa abordagem pode ser a confirmação de que James Gunn e Peter Safran estão construindo algo diferente do que veio antes. E se o roteiro de Nogueira entregar o que suas palavras prometem, “Supergirl” pode se tornar o filme que finalmente dá à heroína kryptoniana a identidade que ela sempre mereceu.

“Supergirl” estreia nos cinemas brasileiros em 25 de junho de 2026.

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